Florianópolis, 02 de setembro de 2026 – A psicóloga e criadora de conteúdo Alessandra Müller, responsável pelo perfil “Juju e a Trupe” no Instagram, conversou com o Space SC sobre os bastidores da produção digital e os impactos das novas medidas do ECA Digital e do Conselho Nacional de Justiça (CNJ) voltadas à proteção de crianças e adolescentes nas redes sociais. Mãe de quatro filhos, Alessandra é a voz por trás do perfil que acompanha o dia a dia de Júlia, sua filha mais nova, que nasceu com síndrome de Down.

COMO NASCEU O PERFIL

Alessandra conta que a criação de conteúdo não foi uma decisão planejada. Após o diagnóstico de Júlia, ainda no período pós-parto, foi nas redes sociais que encontrou referências de outras famílias vivendo a mesma realidade. A experiência a motivou a compartilhar a própria rotina, com o objetivo declarado de oferecer o tipo de conteúdo que ela mesma gostaria de ter encontrado na época. O perfil leva o nome da filha porque, segundo Alessandra, é Júlia quem concentra o interesse do público que acompanha a página.

OS EFEITOS DAS NOVAS REGRAS PARA CRIADORES

Sobre o ECA Digital e as normas do CNJ, Alessandra afirma que os cuidados com a exposição das crianças já faziam parte da rotina de produção, mas foram intensificados a partir do ano passado, após a repercussão do caso associado ao criador de conteúdo Felca — um marco, segundo ela, para o debate sobre a sexualização infantil não intencional nas redes. Desde então, passou a revisar os vídeos com mais atenção antes de publicar, cortando cenas que possam gerar interpretações indevidas.

Com a chegada das novas exigências em 2025, a criadora relata que está em processo de obtenção de alvará para perfis infantis monetizados, com acompanhamento jurídico. Segundo ela, o mercado de assessoria especializada nesse tipo de regularização vem enfrentando alta procura, o que tem elevado os valores cobrados por advogados — um obstáculo, na avaliação da entrevistada, especialmente para criadoras de conteúdo sobre maternidade atípica que não têm monetização relevante nos perfis.

O DEBATE ENTRE PROTEÇÃO E REPRESENTATIVIDADE

Alessandra reconhece a importância das novas regras para coibir a exploração infantil no ambiente digital, mas pondera sobre os efeitos colaterais da regulamentação sobre perfis não monetizados que, segundo ela, têm sido penalizados por interpretações do próprio algoritmo das plataformas em relação ao que caracteriza publicidade indireta.

Para a psicóloga, o espaço digital também cumpre um papel de representatividade para crianças com deficiência, oferecendo referências que dificilmente aparecem em outros meios, como novelas ou publicidade. Ela cita o efeito do perfil no cotidiano da filha, incluindo o reconhecimento por colegas de escola e o reforço da autoestima ao rever os próprios avanços, como os relacionados à leitura.

O QUE ESPERAR DAQUI PARA FRENTE

Ao final da conversa, Alessandra reforçou o desejo de que a nova legislação sirva para proteger crianças e adolescentes sem restringir espaços que, segundo ela, têm valor para a vida dessas famílias. O Space SC vai acompanhar os desdobramentos da regulamentação e seus efeitos sobre criadores de conteúdo em Santa Catarina.

Confira o papo completo.