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Florianópolis, 02 de março de 2026 – A paisagem urbana de Santa Catarina tem sofrido há anos com um problema crônico que mistura poluição visual, descaso corporativo e um perigo iminente para a população: os emaranhados de cabos de telecomunicações abandonados nos postes de energia elétrica. Diante da escalada de ocorrências envolvendo fios soltos — que vão desde a interrupção no trânsito até acidentes graves envolvendo motociclistas e pedestres —, a Celesc decidiu endurecer as regras do jogo. Na última sexta-feira (27), a companhia estatal convocou uma reunião de alinhamento e cobrança com cerca de 300 representantes de operadoras de internet e telefonia que utilizam sua infraestrutura no estado.

O tom do encontro online, longe de ser apenas uma formalidade administrativa, foi um ultimato para a organização da rede compartilhada. A proliferação de empresas regionais de fibra óptica e a alta rotatividade de clientes criaram um cenário de negligência: quando um serviço é cancelado, raramente a empresa envia uma equipe para recolher o cabo inativo. O resultado é um acúmulo insustentável de “fios mortos” que sobrecarregam as estruturas de concreto e ameaçam a segurança pública em praticamente todos os municípios catarinenses.

O Risco Iminente e o Chamado à Responsabilidade

O encontro promovido pela Celesc reuniu figuras-chave para o setor de infraestrutura, incluindo o diretor de Engenharia e Obras da companhia, Cláudio Varella, e gerentes dos departamentos de Telecomunicações e Segurança. Para dar peso legal e regulatório às cobranças, representantes da Agência Nacional de Telecomunicações (ANATEL) em Santa Catarina também marcaram presença, sinalizando que a fiscalização estadual e federal estão, a partir de agora, atuando de forma alinhada.

Durante a apresentação, o gerente de Segurança, Saúde e Bem-Estar da Celesc, Helton Julio Perraro, foi enfático ao expor os protocolos técnicos. A mensagem central foi clara: a fiação irregular não é apenas uma questão de estética urbana, mas um passivo de segurança do trabalho. Equipes de manutenção da própria Celesc frequentemente encontram dificuldades para operar na rede de alta e baixa tensão devido ao caos provocado pelos fios de internet instalados fora dos padrões, colocando a vida de eletricistas em risco.

A Linha Tênue das Responsabilidades Técnicas

Para a população em geral, o poste pertence inteiramente à Celesc, o que muitas vezes direciona as críticas apenas à distribuidora de energia. No entanto, o arcabouço regulatório do setor elétrico e de telecomunicações estabelece limites rígidos. A Celesc é a detentora da estrutura física (o poste) e gerencia, com exclusividade, a rede de energia elétrica na parte superior.

Por outro lado, as empresas de telecomunicações pagam um aluguel para compartilhar os pontos de fixação mais abaixo. Elas assumem, contratualmente, a responsabilidade integral pela qualidade da instalação, pelo tracionamento correto (evitando barrigas nos fios) e, crucialmente, pela retirada imediata de cabos em desuso. O grande gargalo estrutural catarinense reside exatamente na omissão dessas empresas em realizar a manutenção contínua daquilo que instalam. A Celesc, no papel de locadora do espaço, atua na fiscalização e notifica formalmente os provedores infratores, mas não pode, legalmente, sair cortando cabos de dados indiscriminadamente sem os devidos trâmites, sob o risco de derrubar serviços essenciais de conectividade.

Números que Assustam: O Balanço da Fiscalização em Santa Catarina

Se a percepção visual nas ruas já aponta para um colapso, os dados oficiais revelam a magnitude assustadora do problema. Apenas ao longo do ano de 2025, a Celesc intensificou drasticamente sua força-tarefa de auditoria e emitiu 13.028 notificações formais contra operadoras em Santa Catarina.

Esse volume de multas e alertas não se refere a casos isolados. As notificações mapearam irregularidades em impressionantes 51.933 postes espalhados pelo estado. São estruturas sustentando cabos rompidos, roçando no teto de veículos pesados ou completamente abandonados pelas empresas após a migração de tecnologia.

Ainda mais impactante é o resultado das operações conjuntas de limpeza realizadas no último ano entre a Celesc, as operadoras que decidiram cooperar e as prefeituras municipais: mais de 150 toneladas de fios foram recolhidas e descartadas. O peso equivalente a dezenas de caminhões lotados de plástico e cobre inúteis ilustra a falta de compromisso ambiental e logístico de parte do setor de telecomunicações que enriquece operando no estado.

O Impacto Econômico e o Futuro da Infraestrutura Urbana

Do ponto de vista econômico e de desenvolvimento urbano, a poluição por cabos é um impeditivo para a modernização das cidades catarinenses. Polos turísticos e tecnológicos, como Florianópolis, Blumenau e Joinville, lutam para implementar conceitos de “Cidades Inteligentes” (Smart Cities), mas esbarram na saturação física de seus postes. A introdução plena do 5G e a expansão de novas tecnologias IoT (Internet das Coisas) exigem infraestrutura limpa e organizada.

Além disso, a desorganização afeta a logística e o comércio. Fios baixos frequentemente enroscam em caminhões de carga, derrubando postes inteiros, interrompendo o fornecimento de energia para indústrias e comércio local, e gerando prejuízos milionários que poderiam ser evitados com o simples cumprimento das normas de tracionamento por parte dos provedores de internet.

“A Celesc cumpre seu papel fiscalizador e tem intensificado as notificações. Mas é fundamental que cada operadora assuma sua responsabilidade na organização, manutenção e retirada de cabos irregulares. Estamos falando de segurança para trabalhadores e para toda a população”, cravou o diretor Cláudio Varella. Para 2026, a promessa da estatal é não recuar. A fiscalização será ampliada, e as operadoras que continuarem tratando o espaço público como depósito de lixo tecnológico enfrentarão não apenas multas, mas a possibilidade de rescisão de seus contratos de compartilhamento, algo que inviabilizaria suas operações comerciais em Santa Catarina.