Florianópolis, 06 de março de 2026 – O consumidor catarinense que foi ao supermercado nas últimas semanas sentiu um peso inesperado no orçamento doméstico. Após uma sequência animadora de quedas que vinha aliviando o custo da cesta básica, o preço dos ovos registrou um salto expressivo de 9,2% apenas no mês de fevereiro em Santa Catarina. A proteína, historicamente o principal “refúgio” das famílias de baixa renda quando o preço da carne bovina ou suína sobe, transformou-se repentinamente no vilão da inflação alimentar no estado, exigindo manobras no planejamento financeiro de milhares de lares.
Esta guinada abrupta nos preços não é um fenômeno isolado ou mero oportunismo do varejo. Ela reflete uma tempestade perfeita que atinge diretamente a base da cadeia produtiva do agronegócio. Santa Catarina é um dos maiores produtores de aves do Brasil, mas a dinâmica da postura comercial (produção de ovos) responde a variáveis climáticas e econômicas muito sensíveis que, neste início de ano, jogaram contra o produtor e, consequentemente, contra o consumidor final.
A Quebra de uma Tendência Positiva
Durante o segundo semestre do ano passado, o mercado vivenciou uma superoferta que empurrou os preços para baixo, garantindo uma trégua no custo de vida. No entanto, o cenário virou rapidamente. Economistas e pesquisadores do Centro de Socioeconomia e Planejamento Agrícola (Epagri/Cepa) apontam que o aumento de 9,2% em fevereiro quebrou uma tendência de deflação que parecia consolidada. O impacto é imediato, não apenas nas compras de supermercado das famílias, mas em toda a cadeia de serviços alimentícios.
Padarias, confeitarias e restaurantes, que utilizam o ovo como insumo básico e insubstituível em larga escala, já avaliam repassar esse custo para o consumidor. O pão francês, os bolos e as refeições diárias (“prato feito”) tendem a sofrer reajustes nas próximas semanas caso a curva de alta se mantenha.
O Peso dos Insumos e o Fator Climático
Para entender a raiz do aumento, é preciso olhar para as granjas catarinenses. O primeiro grande fator é o clima. O verão rigoroso, com ondas de calor extremo que atingiram o Oeste e o Sul de Santa Catarina entre janeiro e fevereiro, causou um estresse térmico severo nas aves. Galinhas poedeiras são extremamente sensíveis a altas temperaturas, o que reduz drasticamente a taxa de postura (quantidade de ovos botados por dia) e até o tamanho do ovo. Com menos produto chegando ao mercado, a lei da oferta e da demanda dita a alta dos preços.
O segundo pilar desta crise é o custo de produção. Embora o milho e o farelo de soja — base da ração animal — tenham apresentado certa estabilidade recentemente, os custos operacionais com energia elétrica (necessária para a ventilação dos galpões) e logística de transporte engoliram a margem de lucro dos granjeiros. Muitos produtores de menor porte reduziram seus alojamentos de aves no final do ano passado para evitar prejuízos, o que culminou na atual escassez de oferta no mercado catarinense.
O Efeito da Quaresma e Projeções para o Semestre
Há ainda um componente cultural e sazonal pressionando as gôndolas: a aproximação do período da Quaresma. Tradicionalmente, o consumo de carne vermelha diminui nesta época do ano no Brasil, sendo amplamente substituído por peixes e ovos. A indústria e o varejo se antecipam a esse pico de demanda, o que naturalmente eleva as cotações no atacado.
Para os próximos meses, a expectativa de especialistas do setor é de que o mercado encontre um novo ponto de equilíbrio com o fim do verão e a estabilização das temperaturas, o que deve recuperar a produtividade das granjas. Contudo, analistas de mercado alertam que o retorno aos patamares de preço de dezembro passado é improvável a curto prazo. O consumidor catarinense precisará continuar pesquisando e adaptando o cardápio, enquanto o agronegócio local busca soluções tecnológicas e de ambiência climática para proteger sua produção contra as cada vez mais frequentes ondas de calor.

