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Florianópolis, 19 de março de 2026 – Em meio à verticalização acelerada e ao boom de arranha-céus supermodernos que dominam o cenário imobiliário de Santa Catarina, um movimento de preservação arquitetónica tem vindo a ganhar força, provando que o passado também gera dividendos no presente. Uma igreja centenária, erguida originalmente em 1745 pelas primeiras levas de colonizadores luso-açorianos, está a passar por um minucioso processo de restauração. Longe de ser apenas uma obra de manutenção predial, este resgate histórico está a reposicionar a região no mapa do turismo cultural, atraindo visitantes, investigadores e dinamizando a economia local de forma sustentável.

A preservação do património histórico é, frequentemente, vista por parte do setor imobiliário como um obstáculo ao progresso. Contudo, as economias mais maduras do mundo já compreenderam que a identidade cultural é um ativo financeiro inestimável. A restauração deste templo de quase três séculos de existência evidencia exatamente essa lógica. Ao preservar a alvenaria original, as talhas de madeira e as características barrocas da época, o estado não está apenas a proteger pedras antigas; está a lapidar um produto turístico de altíssimo valor acrescentado.

O Valor Económico do Turismo Cultural

Diferente do turismo de sol e mar, que sofre com a forte sazonalidade do verão catarinense, o turismo histórico e cultural atrai um perfil de visitante distinto. Trata-se de um turista que viaja durante todo o ano, possui um ticket médio de gasto mais elevado e está interessado em viver experiências imersivas. O restauro da igreja de 1745 cria um novo ponto de ancoragem para este público.

O impacto económico no entorno é imediato. A presença revitalizada do monumento histórico estimula a requalificação urbana da área adjacente. Pequenos negócios, como cafés artesanais, restaurantes de culinária típica, lojas de artesanato local e pousadas boutiques, encontram no fluxo contínuo de visitantes o ambiente perfeito para prosperar. A economia criativa floresce à sombra do património, gerando empregos que não dependem das grandes cadeias industriais, mas sim da valorização da cultura autóctone.

Engenharia de Restauro e Geração de Emprego Especializado

Um aspeto pouco debatido deste tipo de intervenção é o aquecimento de um nicho de mercado muito específico: a construção civil de restauro. As obras numa edificação de 1745 não podem ser entregues a empreiteiras convencionais. Elas exigem a contratação de arquitetos restauradores, engenheiros especializados em estruturas históricas, historiadores, marceneiros artísticos e especialistas em conservação de arte sacra.

Este investimento, financiado muitas vezes através de leis de incentivo à cultura, fundos governamentais ou parcerias público-privadas, injeta capital diretamente na base intelectual e técnica do estado. Além disso, o canteiro de obras transforma-se num laboratório a céu aberto, permitindo que estudantes universitários de arquitetura e história de Santa Catarina tenham contacto prático com técnicas construtivas do século XVIII.

Memória como Pilar do Desenvolvimento

Para que o resgate desta igreja centenária se reverta num ganho definitivo para o município, especialistas apontam que a restauração física deve ser acompanhada de uma gestão cultural ativa. O espaço precisa de ser inserido em roteiros turísticos oficiais, possuir sinalização interpretativa (incluindo tecnologia de realidade aumentada ou QR codes para contar a história do local) e estar preparado para receber eventos culturais respeitosos, como recitais de música clássica ou exposições.

“Um povo que apaga a sua história converte-se num mero aglomerado de consumidores sem raízes. Santa Catarina tem uma das colonizações mais ricas e diversificadas do Brasil. Quando recuperamos uma igreja de 1745, estamos a dizer aos nossos cidadãos e aos nossos visitantes que temos fundações sólidas”, aponta um especialista do setor de património histórico. Ao investir na sua memória, o estado prova que o verdadeiro desenvolvimento sustentável constrói-se com os olhos no futuro, mas com os pés firmemente ancorados na própria história.