Florianópolis, 01 de abril de 2026 – Qualquer debate sobre qualidade da educação que ignore a pergunta mais básica — as crianças conseguem chegar até a escola? — está incompleto. Não adianta avaliar o desempenho em Língua Portuguesa e Matemática de alunos que faltam às aulas porque o trajeto de casa até a sala de aula é percebido como perigoso. Santa Catarina acaba de registrar o menor índice nacional de faltas de estudantes por razões de segurança no caminho à escola: apenas 8,2% dos alunos relatam este problema. É um número que diz mais sobre a qualidade de vida real de uma população do que muitos indicadores educacionais convencionais.
O dado compõe um retrato mais amplo do ambiente escolar catarinense. O estado também registra o menor percentual nacional de estudantes meninas que deixam de frequentar a escola por falta de absorventes: 9,2%. O acesso a itens de higiene menstrual pode parecer um tema periférico em discussões de política educacional, mas não é. Quando uma adolescente falta às aulas durante a menstruação por não ter produto adequado, perde conteúdo, fica para trás no ritmo da turma e, em casos extremos, abandona o ciclo escolar. Santa Catarina tem 54.908 estudantes beneficiadas por um programa estadual que distribuiu mais de 878 mil absorventes nas escolas estaduais somente no mês de março.
NÚMEROS ALÉM DO ÓBVIO
Os dois indicadores — segurança no trajeto e acesso a itens de higiene — têm em comum o fato de medirem não o que acontece dentro da sala de aula, mas as condições que permitem que o aluno chegue até ela em condições de aprender. É o que especialistas em educação chamam de fatores extraescolares de desempenho: variáveis que a escola sozinha não controla, mas que determinam em grande medida o resultado que ela pode produzir.
Santa Catarina liderar em ambos os indicadores simultaneamente não é coincidência. É o reflexo de um nível de segurança pública urbana e de investimento em programas de assistência estudantil que coloca o estado numa posição diferenciada em relação ao restante do Brasil. Uma criança que não tem medo de ir à escola e que chega equipada para atravessar o dia sem constrangimento tem condições objetivas melhores de aprender — independentemente de qual seja a metodologia do professor ou a qualidade do livro didático.
O QUE AINDA FALTA E O QUE O DADO NÃO DIZ
Os dados positivos coexistem com uma realidade que a própria análise do setor reconhece: Santa Catarina perdeu posições relativas de qualidade de ensino quando comparada a estados que avançaram de forma mais consistente nos últimos anos. Liderar nos indicadores de acesso e segurança é um pré-requisito importante, mas não garante, por si só, que o conteúdo ensinado dentro da escola seja de alto nível. A combinação que o estado precisa construir é a que já tem — o aluno chega — com aquela que ainda está em construção: o aluno aprende. O primeiro passo está dado. O segundo é a tarefa

