Florianópolis, 03 de abril de 2026 – Santa Catarina exporta proteína animal — frango, suíno, derivados — para mais de 150 países e detém certificações sanitárias que permitem acessar praticamente qualquer mercado global. Esta capilaridade, que é uma das maiores forças do agronegócio catarinense, traz consigo uma vulnerabilidade que o setor conhece bem: quando o mundo estremece, a conta chega na mesa das agroindústrias de Chapecó, Concórdia e Itapiranga antes mesmo de aparecer nos noticiários locais. O acirramento do conflito no Oriente Médio, envolvendo Estados Unidos, Israel e Irã, está produzindo exatamente este efeito — e o impacto já é mensurável.
O primeiro efeito concreto é no frete marítimo. O fechamento parcial do Estreito de Ormuz, rota estratégica para o Golfo Pérsico, elevou o custo de transporte de cada contêiner refrigerado em até US$ 4 mil. Além do custo maior, o tempo de transporte das cargas aumentou — o que reduz a validade dos produtos e obriga as agroindústrias a recalcular janelas de exportação. Em alguns casos, já há relatos de suspensão de reservas em navios com destino à região, o chamado “rollover”: mercadoria pronta, navio sem vaga, produto retido sem embarque. Tudo isso, segundo o diretor-executivo do Sindicarne e da ACAV (Associação Catarinense de Avicultura), Jorge Luiz de Lima, já está no radar das empresas catarinenses do setor.
O MILHO COMO VARIÁVEL INVISÍVEL
Há um segundo canal de transmissão do conflito que é menos visível, mas igualmente relevante: a volatilidade no preço do milho. O cereal é cotado em dólar e representa 70% do custo da ração para aves e suínos — a matéria-prima mais importante de toda a cadeia produtiva integrada. Nos últimos dias, houve altas de até 6% neste insumo em função das tensões geopolíticas. Para uma agroindústria que processa centenas de milhares de toneladas de ração por mês, uma variação de 6% no milho não é ruído estatístico: é pressão imediata sobre a margem.
O setor, contudo, não está olhando para o Oriente Médio apenas como fonte de problemas. A região concentra dois terços da população mundial e as projeções indicam chegada a três quartos até 2040 — o que representa uma expansão potencial enorme para a demanda por proteína animal. Japão, China, Filipinas, Arábia Saudita, Emirados Árabes Unidos e Reino Unido já estão entre os maiores mercados de proteína catarinense no exterior. É um mercado estratégico que o setor quer manter e expandir, não perder.
A RESPOSTA DO GOVERNO FEDERAL — E O QUE ELA SIGNIFICA PARA SC
O governo federal reagiu ao cenário com a Medida Provisória 1.345/2026, que ampliou o Plano Brasil Soberano — gerido pelo BNDES — com mais R$ 15 bilhões em orçamento. A medida oferece linhas de crédito com condições mais acessíveis para empresas exportadoras afetadas pelo conflito e para seus fornecedores. Na mesma data, foi sancionada a Lei Federal nº 15.359/26, que cria o Sistema Brasileiro de Crédito Oficial à Exportação. Para as agroindústrias catarinenses, que estão entre as maiores exportadoras do país, este crédito pode ser o colchão que permite atravessar o período de instabilidade sem comprometer contratos de longo prazo com compradores internacionais. O conflito não tem prazo para terminar. A capacidade de se adaptar a ele, sim.

