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Florianópolis, 09 de março de 2026 – O motor econômico de Santa Catarina não funciona apenas com base em máquinas e exportações, mas depende diretamente da valorização da sua força de trabalho. Em um movimento aguardado por milhares de trabalhadores, representantes da classe patronal e sindical chegaram a um consenso para o reajuste do Salário Mínimo Regional de 2026. Os novos valores, que variam entre R$ 1.612,26 e R$ 2.106, dependendo da faixa profissional, refletem a saúde financeira do estado e a necessidade de reter talentos em um mercado de trabalho que opera em situação de pleno emprego. O acordo agora segue para a Assembleia Legislativa (Alesc), onde aguarda aprovação em regime de urgência.

A existência de um piso regional é uma particularidade que destaca Santa Catarina no cenário nacional. Adotado desde 2010, o modelo catarinense é frequentemente citado por economistas e estudiosos das relações de trabalho como um exemplo de maturidade democrática. Diferente do piso nacional, que é imposto pelo Governo Federal, as quatro faixas salariais de Santa Catarina são definidas após exaustivas rodadas de negociação direta entre a FIESC (Federação das Indústrias), Fecomércio, e as principais centrais sindicais do estado. O governo atua apenas como validador legal desse acordo, enviando o projeto de lei para a Alesc.

O Impacto Real no Poder de Compra

A decisão de estabelecer remunerações acima do salário mínimo nacional não é caridade corporativa, mas sim pragmatismo econômico. Santa Catarina possui o menor índice de desemprego do Brasil. Em polos industriais como Joinville, Jaraguá do Sul e no polo tecnológico da Grande Florianópolis, há uma escassez crônica de mão de obra qualificada e técnica. O piso regional atua como um mecanismo de atração e retenção de trabalhadores, evitando que o estado perca profissionais para regiões vizinhas.

As quatro faixas salariais abrangem diferentes níveis de complexidade. A primeira faixa atende trabalhadores da agricultura, empregados domésticos e auxiliares de serviços gerais. A quarta faixa — a mais alta, que atinge os R$ 2.106 — é destinada a trabalhadores técnicos de nível médio, operadores de máquinas complexas e profissionais metalúrgicos. O reajuste médio acordado visa, no mínimo, repor as perdas com a inflação acumulada do último ano (INPC) e garantir um ganho real, oxigenando o poder de compra da base da pirâmide trabalhista.

A Tensão Antes da Aprovação na Alesc

Apesar do acordo selado entre empresários e trabalhadores, o processo legislativo ainda causa certa ansiedade. O projeto de lei precisa tramitar pelas comissões da Assembleia Legislativa antes da votação em plenário. Tradicionalmente, os deputados catarinenses respeitam o acordo firmado pela sociedade civil e aprovam o texto sem grandes alterações. No entanto, o debate sempre traz à tona as pressões de micro e pequenos empresários, especialmente do setor de varejo e serviços do interior, que argumentam que os sucessivos reajustes encarecem a folha de pagamento e reduzem as margens de lucro dos negócios locais.

Um Círculo Virtuoso para o Varejo

Para os especialistas em macroeconomia regional, contudo, o efeito do piso regional é amplamente positivo. “O trabalhador que ganha salário mínimo não envia o seu dinheiro para paraísos fiscais nem faz investimentos em ações. Todo o centavo do reajuste volta imediatamente para a economia local. É dinheiro que vai para a padaria da esquina, para o supermercado do bairro e para a loja de roupas”, explica um economista do Dieese/SC.

A expectativa do governo estadual e das lideranças sindicais é que a Alesc aprove o projeto de lei ainda na primeira quinzena de março, com o reajuste retroativo a janeiro, garantindo assim que a economia de Santa Catarina continue girando impulsionada por um trabalhador valorizado e com capacidade de consumo real.