Florianópolis, 11 de junho de 2026 — Taty Lorenzi não planejou entrar na gastronomia. Não tinha formação, não tinha capital e não conhecia nada sobre administrar um restaurante. O que tinha era um fogareiro, uma loja herdada de outra pessoa e a necessidade de pagar as contas. Quinze anos depois, o Cachorrão Hot Dog fatura R$ 14 milhões por ano, serve cerca de 3 mil clientes por dia, opera em seis unidades na Grande Florianópolis e emprega mais de 100 pessoas. A trajetória dela é a prova de que o produto mais simples possível, tratado com método e capricho, vira um negócio de verdade.
UMA ATENDENTE QUE COMPROU O PONTO
Antes do Cachorrão, Tatiany já empreendedora desde os 18 anos, tinha passado por lojas de videogame e de acessórios. Quando foi trabalhar como atendente numa lanchonete, não imaginava que aquele seria o começo de uma empresa própria.
Com o tempo, comprou o ponto e passou cerca de um ano operando com o nome anterior antes de criar a própria marca. Não havia plano de negócio, não havia experiência no setor. “Eu comecei por necessidade financeira mesmo. Não conhecia nada sobre o ramo de gastronomia. Com o tempo fui me apaixonando e fui entendendo que as pessoas precisavam de um produto acessível, mas que fosse uma experiência.”.
A FACULDADE QUE MUDOU O NEGÓCIO
A decisão de cursar gastronomia foi o ponto de inflexão. Taty não buscava só técnica culinária: queria entender como administrar uma empresa no setor. O que aprendeu foi direto para a operação.
Passou a criar os próprios molhos e maioneses caseiras, montou uma cozinha industrial centralizada e começou a expandir o cardápio de forma sistemática. O primeiro sabor novo saiu de uma sobra de estrogonofe feita em casa, colocada dentro do pão com salsicha por curiosidade. Funcionou, virou um dos preferidos do cardápio e abriu caminho para o que hoje são 38 sabores, incluindo versões doces que a maioria dos clientes desconhece.
Toda a produção sai da cozinha industrial antes de ser distribuída para cada unidade. Repolho, queijo, molhos: tudo preparado diariamente. “A nossa operação vai 24 horas. Às seis da manhã já começa a produção.” A ficha técnica de cada item, com gramagem exata de cada ingrediente, é o instrumento que garante o padrão entre as unidades.
A EMBALAGEM QUE VIROU REFERÊNCIA
Antes de qualquer estratégia formal de marketing, Taty já pensava em experiência do cliente. O Cachorrão foi a primeira empresa da região a lançar embalagem de papel personalizada para cachorro-quente, com o nome do cliente impresso. “O cliente achava que estava recebendo um presente.”.
Esse cuidado com a apresentação antecipou o que hoje é chamado de branding. Desde o início, a empresa mostrou os bastidores da produção: quem preparava, como era feito, o que havia por trás de cada pedido. Os clientes foram se identificando com a história. Hoje o perfil @cachorraohd reúne 81 mil seguidores no Instagram, número expressivo para uma empresa regional do setor de alimentação.
A FAMÍLIA DENTRO DA EMPRESA
Taty foi mãe cedo. Quando começou no Cachorrão, a filha Milena tinha 12 anos e ia junto limpar mesas e atender clientes. “Ela odiava. Tinha vergonha. Os amigos eram filhos de médico, de dentista. E ela era filha da dona de cachorro-quente.”.
Com o tempo, foi Milena quem começou a fotografar e filmar os bastidores do negócio. Hoje tem a própria agência de marketing. A mãe de Taty entrou na operação durante a pandemia e assumiu a cozinha industrial: prepara todos os molhos e cuida da área do fogão até hoje. “Praticamente fui gerando emprego para toda a família. A gente veio de uma família muito humilde. Poder proporcionar isso e ainda gerar emprego para tantas outras pessoas é uma das minhas maiores paixões no que faço.”.
OS NÚMEROS E O MOMENTO ATUAL
O Cachorrão encerrou 2025 com R$ 14 milhões em faturamento. O começo de 2026 trouxe queda nos primeiros três meses, movimento que Taty avalia como reflexo de um cenário mais amplo no setor de alimentação. A resposta foi não se acomodar: “A gente está sempre atrás de trazer novidade. Não dá para se escorar nisso.”.
Com faturamento médio mensal entre R$ 1,2 milhão e R$ 1,3 milhão e 3 mil clientes atendidos por dia, a meta é fechar 2026 acima de 2025. As seis unidades operam em Florianópolis, São José, Palhoça e Biguaçu, cada uma com gerente próprio e supervisão de padrão operacional centralizada.
Manter a consistência do produto em escala é o desafio que Taty aponta com mais frequência. “É igual receita de bolo. Dá a mesma receita para duas pessoas, prepara lado a lado: um fica diferente do outro. A ficha técnica minimiza isso, mas variações acontecem.”.
GESTÃO: O CAMINHO PARA SAIR DO OPERACIONAL
Hoje Taty está fora da operação. As decisões estratégicas, o desenvolvimento de novos produtos, as reformas das unidades e a curadoria dos conteúdos são as frentes que ela toca diretamente. A gestão administrativa e operacional ficou nas mãos de profissionais contratados.
“Uma empresa só fica consolidada com pelo menos 10 anos, e é só então que o dono consegue sair do operacional e enxergar o todo. Quando você está muito dentro da operação, não tem tempo para olhar o que está fora e trazer o que é novo.”.
Parte dessa visão vem da rotina de consumir o próprio mercado. Taty frequenta restaurantes estrelados e hot dogs de calçada com a mesma regularidade. “Sou cliente de praticamente todos os hot dogs de Florianópolis. Do que vejo, sempre trago algo para o meu negócio.”.
EXPANSÃO E PRÓXIMOS PASSOS
O Cachorrão está em processo de renovação de marca. Duas lojas já foram reformadas com a nova identidade visual, e as demais seguem na fila. Há negociação em andamento para abrir uma unidade maior em Palhoça: a loja atual funciona dentro de um centro comercial com horário limitado, o que reduz o atendimento presencial.
“Palhoça merece uma loja grande.” O objetivo é ampliar a presença em novos bairros e cobrir toda a Grande Florianópolis.
O QUE ELA QUER DEIXAR
Quando Taty fala em legado, não menciona faturamento. “Se fosse pelo dinheiro, talvez eu já tivesse parado. É muito desafiador trabalhar com alimento.” O que a sustenta é saber que o produto dela chega diariamente à mesa de milhares de famílias e que a empresa gerou trabalho para mais de 100 pessoas.
“O Cachorrão é uma empresa com alma. A gente coloca muito amor aqui. Não tem nada melhor do que dividir a mesa com quem você ama. Acho que é sobre isso.”.
Para quem está começando, a orientação é direta: “Olhe os números. Muitos empreendedores não gostam de olhar e ficam disfarçando. Empreender exige decisões difíceis, baseadas em dados, não no coração.”
O Cachorrão Hot Dog está presente em Florianópolis, São José, Palhoça e Biguaçu. Perfil oficial: @cachorraohd.

