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Florianópolis, 31 de março de 2026 – Há uma diferença real entre uma cidade que cria programas para mulheres e uma cidade que decide, de forma estruturada e coerente, construir uma rede capaz de atravessar a vida feminina em qualquer fase — da gestação à terceira idade, do consultório ginecológico ao primeiro emprego formal após anos fora do mercado de trabalho. Florianópolis, onde as mulheres representam 52,1% da população segundo o IBGE, escolheu o segundo caminho. E os números que começam a emergir desta escolha já são impossíveis de ignorar.

O que existe hoje na capital catarinense não nasceu de um programa isolado ou de uma gestão que descobriu o tema às vésperas de uma data comemorativa. É o resultado de uma aposta institucional consistente: integrar serviços que historicamente funcionavam em silos — saúde, segurança pública, assistência social, educação e empregabilidade — numa rede onde cada ponto de contato com o poder público se torna, ao mesmo tempo, porta de entrada e plataforma de acesso a tudo que vem depois. Para uma mulher que chega ao município em situação de vulnerabilidade, esta arquitetura representa uma diferença que não se mede apenas em atendimentos: mede-se em vidas que encontram um caminho quando mais precisavam.

O QUE OS NÚMEROS REVELAM?

O Espaço Acolher Floripa funciona 24 horas por dia, todos os dias da semana, sem necessidade de agendamento, com equipe exclusivamente feminina e instalado em anexo ao MultiHospital. Atende mulheres, crianças e adolescentes em situações de violência física, sexual, psicológica e patrimonial, oferecendo enfermagem, acolhimento psicossocial, coleta de exames e encaminhamentos integrados com os órgãos de segurança. Desde a sua abertura, em agosto de 2024, foram 5,4 mil atendimentos — um volume que evidencia tanto a escala do problema quanto a capacidade da cidade de enfrentá-lo sem desviar o olhar.

O CREMV — Centro de Referência à Mulher em Situação de Violência — complementa esta estrutura com atendimento psicossocial especializado e foco na interrupção dos ciclos de violência: 314 atendimentos em 2024, concentrados nos casos de violência psicológica, física, patrimonial e sexual. Para as situações em que permanecer em casa representa risco imediato à vida, a Casa de Passagem oferece um ambiente seguro por uma média de três meses — foram 433 atendimentos no mesmo ano. E para que o recomeço seja de fato possível, o Benefício Desacolhimento garante um salário mínimo mensal por até seis meses, prorrogável por mais três, para que a mulher consiga estabelecer uma nova residência sem depender economicamente de quem a ameaçava. É o tipo de detalhe operacional que transforma uma política pública de boa intenção em mudança real.

QUANDO INVESTIR EM SAÚDE FEMININA DEIXA DE SER CUSTO E VIRA CONQUISTA.

Aparelho de Tomografia de Florianópolis | Foto: Peter Nesta/ SECOM-MFX
Aparelho de Tomografia de Florianópolis | Foto: Peter Nesta/ SECOM-MFX

A Policlínica da Mulher e da Criança acumula 60 mil atendimentos nos últimos dois anos, com acompanhamento que vai do climatério à menopausa e ações de rastreamento dos cânceres de mama e de colo do útero. Desde a abertura do MultiHospital, em junho de 2024, foram mais de 6,9 mil consultas ginecológicas e cerca de 1.070 ultrassonografias transvaginais, além de preventivos, colposcopias, dosagem hormonal e ultrassonografia de mamas. Mas é um dado específico que resume, com uma clareza quase brutal, o impacto de se investir em infraestrutura diagnóstica própria:

O primeiro mamógrafo próprio da rede municipal entrou em funcionamento e, em dois meses, a fila caiu 77%. A meta é zerar a espera por rastreamento até maio de 2026 — e a trajetória dos números sugere que não é uma promessa vazia. Os centros de saúde da Capital respondem por 85% a 90% das demandas femininas do município em consultas de rotina, preventivos e grupos de gestantes. A rede avançou também no planejamento reprodutivo: o Implanon, contraceptivo subdérmico de longa duração, já beneficiou cerca de 270 mulheres desde janeiro; e a capacitação de enfermeiros da rede para inserção e retirada do DIU de cobre descentralizou um serviço que antes exigia encaminhamento externo — tornando o acesso mais simples para quem mais precisa que ele seja simples. O Programa Capital Criança fecha este ciclo com quase 30 anos de continuidade: imunização neonatal, kits de primeiros cuidados e agendamento das primeiras consultas para mãe e bebê.

LIBERDADE ECONÔMICA NÃO É DETALHE. É A BASE DE TUDO.

Florianópolis entende que proteção sem autonomia é uma solução pela metade. O Programa Floripa Mais Empregos e parcerias com diferentes instituições fomentam o empreendedorismo feminino de forma concreta. Uma lei municipal reserva 5% das vagas em contratos terceirizados da administração para mulheres em situação de violência, mecanismo que abre a porta do mercado formal sem depender da boa vontade do setor privado. Vítimas de violência têm direito a até 50 passagens gratuitas no transporte público para acessar a rede de proteção; gestantes ganham o mesmo benefício para consultas de pré-natal. Às atletas, o município oferece incentivo à participação em eventos esportivos e garante igualdade nas premiações. São políticas que, somadas, formam uma rede de dignidade — e a rede é o que permite que uma mulher se levante.

Toda esta engrenagem é articulada pela Assessoria de Políticas Públicas para Mulheres e Igualdade de Gênero, cuja função é exatamente garantir que a integração entre as secretarias não fique no papel: que ela seja verificável no cotidiano de quem usa os serviços e não apenas nos relatórios de quem os gerencia.

DUAS HISTÓRIAS QUE UMA CIDADE DECIDIU QUE NÃO DEVERIAM SE REPETIR

A EJA — Educação de Jovens, Adultos e Idosos — aparece neste mapa como o componente que fecha um círculo que muita gente nem percebe que estava aberto. Para as mulheres que foram obrigadas a abandonar a escola por dinâmicas domésticas de controle, o retorno à sala de aula não é apenas uma questão educacional: é um ato de reparação. Maria Aparecida da Silva, de 69 anos, chegou a Florianópolis no início da pandemia vinda de Pernambuco. Tinha sido pressionada pelo marido a deixar os estudos ainda jovem. Voltou depois de ficar viúva. 

“A vida quando a gente não sabe ler é preto e branco. Depois que aprende, ela fica colorida”, diz. Eli Matilde Alves, 63 anos, moradora do Sul da Ilha, cresceu ajudando nas tarefas domésticas enquanto outras crianças iam à escola. Hoje frequenta a EJA e diz que finalmente está vivendo algo que esperou décadas para acontecer. As matrículas na modalidade permanecem abertas durante todo o ano — porque a cidade entendeu que nunca é tarde para uma segunda chance.

QUANDO O SETOR PRIVADO PARA DE SER ESPECTADOR

O Protocolo Não Se Cale é talvez o sinal mais claro de que Florianópolis está pensando em proteção de forma sistêmica — e não apenas reativa. Inspirado no protocolo “No Callem”, criado em Barcelona em 2018 e replicado em diversas cidades europeias, o programa capacita funcionários de bares, restaurantes, boates e casas de eventos para identificar situações de risco e oferecer apoio imediato e seguro às vítimas. O setor de serviços — historicamente um dos ambientes de maior incidência de assédio — passa a integrar a rede de proteção como agente ativo. Mais de 30 estabelecimentos já aderiram em Florianópolis, e a adesão segue aberta.

O que Florianópolis está construindo merece ser lido com atenção — não apenas por quem trabalha com políticas de gênero, mas por qualquer pessoa que acredita que o desenvolvimento de uma cidade se mede pelo que ela faz com e por todas as pessoas que a habitam. Uma capital que protege, cuida, educa e emprega mais de metade da sua população não está apenas sendo justa: está sendo inteligente. E está mostrando, com dados e histórias reais, que é possível fazer diferente. Que já está sendo feito.

Conforme Lei nº 10.199, a Prefeitura informa que a produção do conteúdo não teve custo e sua veiculação custou R$ 10.000,00.