Florianópolis, 06 de abril de 2026 – Lincoln Venâncio plantou 1,5 milhão de ostras jovens nesta temporada. Perdeu quase tudo. Não porque errou no manejo, não porque houve uma tempestade. A temperatura da água do mar, que costumava bater nos 28°C no verão florianopolitano, chegou a 34°C neste último verão. Para uma ostra, essa diferença é incompatível com a vida.
Venâncio não está sozinho. Em toda a Ilha, maricultores relatam perdas que podem chegar a 90% da safra desta temporada. Uma fazenda marítima visitada pela imprensa tinha pelo menos 100 m² e 8 metros de altura ocupados por moluscos mortos. No total, estima-se que 72 milhões de ostras tenham sido perdidas só em 2026. Florianópolis é o maior produtor de ostras do Brasil — o que torna o tamanho do estrago ainda mais difícil de absorver.
O QUE O CALOR FAZ NA ÁGUA
Paulo Horta, ecólogo marinho e professor da UFSC, explica a mecânica do problema sem rodeios: quando a temperatura sobe, a água retém menos oxigênio dissolvido. As algas, que normalmente produzem esse oxigênio, perdem capacidade. A fazenda marítima, projetada para um regime térmico que não existe mais, vira uma armadilha. A solução que ele defende é introduzir algas nos cultivos — organismos que compensam a falta de oxigênio e criam uma espécie de amortecedor biológico. É simples na teoria. Na prática, exige tempo, investimento e um verão que não venha com 34°C.
O PROBLEMA NÃO FOI ESTE VERÃO
O dado mais preocupante não é a perda em si — é que não há registro histórico de temperatura marinha chegando a esse nível no litoral catarinense. Não é um ano ruim. É um parâmetro novo. A maricultura catarinense foi construída durante décadas sobre um equilíbrio térmico que está mudando mais rápido do que a atividade consegue se adaptar. Os produtores podem se recuperar de uma safra perdida. A questão é o que fazem quando percebem que a próxima também está em risco pelo mesmo motivo.
O QUE VEM DEPOIS DO PREJUÍZO
O problema econômico imediato é grave, mas tem um horizonte. O problema estrutural não tem. A maricultura em Florianópolis envolve cerca de 700 famílias que dependem diretamente da atividade, segundo levantamentos da Epagri. Muitas delas trabalham com financiamento — compraram equipamentos, sementes, estruturas de cultivo apostando numa safra que não veio. Crédito rural para reposição de estoque não é simples de acessar quando a perda foi causada por um evento climático que os seguros convencionais frequentemente não cobrem. A UFSC e a Epagri discutem há alguns meses a possibilidade de desenvolver variedades de ostras mais resistentes ao calor, mas isso leva anos de pesquisa e não resolve o verão que já passou. O que os produtores precisam agora — e o que ainda não tem resposta clara — é saber se o estado vai tratar isso como emergência agrícola ou como mais um capítulo num relatório sobre mudanças climáticas.

