Florianópolis, 25 de março de 2026 – Quem conhece o litoral catarinense nas altas temporadas ou nos períodos de grande fluxo de carga sabe que a BR-101 há muito deixou de ser uma solução e passou a ser o principal problema. A rodovia que conecta Joinville à Grande Florianópolis, atravessando pólos industriais e logísticos de importância estratégica para a economia nacional, transformou-se numa fila quilométrica crônica que sufoca o escoamento da produção, encarece o frete e compromete a competitividade de todo o estado. A resposta do governo de Santa Catarina chegou com a envergadura que o problema exige: a Via Mar, uma nova rodovia de alto padrão com 145 quilómetros de extensão, investimento inicial de R$ 1 bilhão e velocidade máxima de 120 km/h, projetada para ser a alternativa definitiva e estrutural à BR-101 no litoral catarinense.
A Via Mar foi concebida para percorrer o litoral catarinense conectando Joinville ao Contorno Viário da Grande Florianópolis, passando por municípios de alto potencial logístico e produtivo como Guaramirim, Massaranduba, São João do Itaperiú, Navegantes e Itajaí. O projeto prevê uma rodovia de seis faixas — três em cada sentido — com acessos controlados, infraestrutura de última geração e padrão operacional equivalente às melhores autoestradas do Brasil. O modelo de execução é híbrido: o Estado financia a primeira fase com o aporte inicial de R$ 1 bilhão, enquanto as etapas subsequentes serão viabilizadas por meio de Parcerias Público-Privadas, num investimento total estimado entre R$ 7 e R$ 7,5 bilhões.
A Arquitetura do Projeto: Lotes e Prioridades
A primeira fase da Via Mar divide-se em quatro lotes e um trecho remanescente, cada um com características técnicas e geográficas distintas. O Lote 1, executado diretamente pelo governo estadual, abrangerá 26,85 quilômetros entre o entroncamento da BR-101 em Joinville e a BR-280 em Guaramirim, incluindo a construção de quatro pontes e dois viadutos. O Lote 2 cobrirá 21,09 quilómetros até à SC-415, com duas pontes e um viaduto. O Lote 3 percorrerá 16,77 quilómetros até à SC-414 em Luís Alves e Navegantes, com atenção especial às oito contenções de taludes necessárias no trecho. O Lote 4, o mais complexo, avançará 25,78 quilómetros até Itajaí, com quatro viadutos e quatro pontes. O trecho remanescente, de 54,72 quilômetros, ligará Itajaí ao Contorno Viário da Grande Florianópolis.
A escala de obras especiais — pontes, viadutos e contenções — revela a complexidade técnica do empreendimento. O litoral catarinense apresenta características geomorfológicas desafiadoras, com rios, morros e áreas de mangue que exigem engenharia de precisão para garantir que a nova rodovia não apenas se construa, mas resista com integridade às décadas de operação intensiva que se seguirão. Este investimento em qualidade estrutural desde a concepção é precisamente o que diferencia a Via Mar das obras públicas que, inauguradas com pompa, deterioram-se em poucos anos por falta de dimensionamento adequado.
O Impacto Logístico e Econômico para as Indústrias Catarinenses
Para o setor produtivo de Santa Catarina, a Via Mar representa muito mais do que uma nova faixa de asfalto. É, antes de mais, uma redução mensurável do chamado “Custo Brasil” no transporte de mercadorias. Os polos industriais de Joinville e da região do Vale do Itajaí — com destaque para a indústria têxtil, metalmecânica, frigorífica e de tecnologia — dependem criticamente do escoamento eficiente da produção em direção aos portos de Itajaí e Navegantes, os maiores exportadores do Sul do Brasil. A Via Mar criará um corredor expresso dedicado para esta circulação, separando o tráfego pesado de carga do fluxo de veículos leves e turísticos que partilham hoje a mesma faixa da BR-101.
Economistas especializados em logística e comércio exterior calculam que cada hora poupada no transporte de um contentor entre a fábrica e o cais de embarque representa poupanças acumuladas de milhões de reais ao longo de um exercício económico completo. Em contratos de exportação, onde os prazos de entrega são rígidos e as penalidades por incumprimento são severas, a previsibilidade do tempo de trânsito proporcionada por uma via de alto padrão é um ativo competitivo de valor incalculável. A Via Mar posiciona as empresas catarinenses em melhores condições para competir em mercados internacionais exigentes.
O Turismo e a Qualidade de Vida nos Municípios do Litoral
O impacto da Via Mar não se restringe ao mundo industrial. Para os municípios litorâneos que a rodovia atravessa, a existência de um corredor alternativo de alta velocidade significa a libertação das suas vias centrais da invasão de carretas e caminhões articulados que hoje competem com os banhistas, os ciclistas e os residentes locais pelo mesmo espaço urbano. A separação entre o tráfego pesado e o fluxo turístico valorizará os imóveis próximos às praias, reduzirá os acidentes nas travessias urbanas e tornará o litoral catarinense um destino ainda mais atrativo para os milhões de turistas que o visitam anualmente. A Via Mar é, simultaneamente, uma obra de infraestrutura económica e uma política de qualidade de vida. Santa Catarina tem diante de si a oportunidade histórica de provar que ambas as coisas podem andar juntas.

