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Florianópolis, 26 de março de 2026 – Há metas que soam a slogan político e há metas que assentam sobre dados. A ambição de Santa Catarina de elevar o setor tecnológico a 10% do seu Produto Interno Bruto nos próximos anos pertence, de forma inequívoca, à segunda categoria. Com 29,4 mil empresas de tecnologia ativas no seu território, um faturamento sectorial superior a R$ 42 bilhões e uma participação já de 7,75% no PIB estadual — segundo dados da Associação Catarinense de Tecnologia (ACATE) —, o estado não está a correr atrás de um sonho; está a calibrar o passo para cruzar uma linha de chegada que já avista. Mais do que uma ambição numérica, os 10% representam uma declaração de identidade económica: Santa Catarina quer ser, de forma irrevogável e definitiva, o estado brasileiro que apostou na inovação como motor primário de desenvolvimento.

O contexto atual confere a esta meta uma credibilidade que nenhum discurso político conseguiria fabricar. Santa Catarina ocupa o segundo lugar no ranking nacional de estados mais inovadores do Brasil — atrás apenas de São Paulo, que possui uma vantagem histórica e de escala que leva décadas a construir. Mas o ritmo de crescimento do ecossistema catarinense supera o do rival paulista em vários indicadores qualitativos, desde a densidade de startups por habitante até à taxa de internacionalização das suas empresas de tecnologia. Este posicionamento não é fruto do acaso; é o resultado de uma política pública estruturada, sustentada e coerente ao longo de múltiplas administrações.

Os Pilares da Estratégia: Crédito, Formação e Digitalização

A estratégia da Secretaria de Estado da Ciência, Tecnologia e Inovação (SCTI) para 2025 — o ano que consolidou este posicionamento — assenta em três eixos complementares e mutuamente reforçadores. O primeiro é o acesso ao capital: o Pronampe Inovação facilitou o crédito a juros subsidiados para micro e pequenas empresas do setor tecnológico, injetando recursos diretamente na base da pirâmide do ecossistema — as startups nos estágios iniciais, onde o capital é mais escasso e o potencial de crescimento é máximo. O segundo eixo é a formação de talentos: programas como o SC Games e o Novos Talentos levaram a programação, a arte digital e o desenvolvimento de jogos às crianças e jovens de todas as regiões do estado, semeando a base humana que sustentará o crescimento tecnológico nas próximas décadas.

O terceiro eixo é a digitalização do próprio estado, que actua como um catalisador duplo: por um lado, moderniza a prestação de serviços públicos — o SC Fácil, com mais de 530 serviços integrados numa única plataforma digital, é o exemplo mais visível desta transformação; por outro, funciona como um laboratório de encomendas públicas que impulsiona o desenvolvimento de soluções inovadoras por parte das empresas locais. Quando o governo de Santa Catarina digitaliza um serviço, não está apenas a poupar tempo ao cidadão; está a criar uma oportunidade de mercado para as empresas de tecnologia catarinenses que desenvolvem e mantêm essas plataformas.

Os 100 Mil Empregos e o Salário que Muda Famílias

Além da dimensão macroeconómica, a aposta na tecnologia tem um impacto distributivo profundo e raramente contabilizado nas análises de política económica. O setor tecnológico de Santa Catarina emprega hoje mais de 100 mil pessoas, com salários médios sistematicamente acima da média dos setores tradicionais da economia. Cada técnico de software, cada analista de dados e cada engenheiro de produto que encontra emprego qualificado numa empresa catarinense de tecnologia representa uma família que consome mais, investe na educação dos filhos, acede a planos de saúde privados e contribui fiscalmente a um nível proporcionalmente superior. O multiplicador económico de um emprego de alta qualificação no setor tecnológico é, comprovadamente, maior do que o de postos de trabalho em setores de baixo valor acrescentado.

O lançamento do SCTEC — o maior programa estadual de qualificação tecnológica já realizado em Santa Catarina, com cursos gratuitos em tecnologia e inteligência artificial — aponta na direção certa: o estado reconhece que o recurso mais escasso do ecossistema não é o capital nem a infraestrutura; é o talento humano qualificado. Ao oferecer formação gratuita e acessível, o governo democratiza o acesso às oportunidades de trabalho que o setor tecnológico cria, evitando que a prosperidade tecnológica beneficie apenas uma elite urbana já privilegiada.

O Caminho Para os 10%: Desafios e Urgências

Passar de 7,75% para 10% de participação do PIB pode parecer um incremento modesto em termos percentuais absolutos. Mas em termos de escala real — dado o tamanho e a complexidade da economia catarinense —, significa atrair e desenvolver uma massa adicional substancial de empresas, empregos e faturamento. Os analistas identificam dois desafios prioritários para este salto final: a internacionalização das startups catarinenses, que ainda exportam uma proporção abaixo do seu potencial real; e a consolidação de um mercado local de venture capital com dimensão e sofisticação suficientes para financiar as rodadas Série B e Série C das empresas que já provaram o seu modelo de negócio. Santa Catarina tem o ecossistema, a política pública e a determinação. A corrida para os 10% já começou — e o pelotão da frente está cada vez mais próximo da linha de chegada.